Tocando em frente - Gabriel Martinelli. - 3 | Florescer. - Wattpad
Tocando em frente - Gabriel Martinelli.
de Lisezee
Tocando em frente - Gabriel Martinelli.
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Tocando em frente - Gabriel Martinelli.
Anna Alice sempre acreditou que, quando os outros não mudam, somos nós que mudamos. Assim, o outro jamais precisaria fazê-lo. Desinibida, bem articulada e naturalmente simpática, ela atravessava o auge da juventude quando se viu diante de um dos maiores inimigos de quem ainda está aprendendo a viver: o luto.
Com o passar dos anos, Anna Alice desabrochou, assim como uma flor.
Seus cabelos, que já eram longos quando ainda era apenas uma menina, agora, aos dezessete anos, pareciam não ter fim. Os fios escuros desciam muito além da cintura e tinham um brilho espelhado que despertava inveja em pelo menos metade das mulheres ao seu redor. O corpo também já não lembrava em nada o da adolescente magricela de alguns anos atrás. Continuava esguio, mas agora carregava curvas naturalmente bem desenhadas, pernas longas, cintura marcada e seios que, da noite para o dia, pareciam simplesmente ter dobrado de tamanho. O sorriso, antes escondido atrás de anos de aparelho ortodôntico, agora era perfeitamente alinhado.
Era inegável.
Anna Alice Vega havia se tornado uma mulher muito bonita.
Talvez bonita o suficiente para despertar aquela velha rivalidade feminina que tantas pessoas insistiam em dizer que existia. Aquela conversa de que "mulheres bonitas nunca se gostam". Mas, sinceramente, era impossível não gostar de Nalice.
Sua personalidade continuava exatamente a mesma.
- Falante.
- Carismática.
- Espontânea.
- Naturalmente simpática.
Fazia amizade com uma facilidade impressionante. Conversava com professores, funcionários da escola, crianças pequenas, idosos, desconhecidos na fila da padaria... pouco importava. Desde pequena carregava essa facilidade de transformar qualquer ambiente em um lugar familiar. Quanto mais o tempo passava, mais parecia florescer, e talvez fosse justamente isso que chamasse tanta atenção. Não era apenas bonita. Era leve.
Muitas coisas haviam mudado ao longo daqueles três anos.
Anna já não achava os garotos completamente nojentos. Na verdade, até gostava da companhia deles. Sempre fora muito bem tratada pelos meninos da escola e do estádio, afinal, havia sido agraciada com uma beleza que dificilmente passava despercebida pelos olhos masculinos. E, convenhamos, existia alguma criatura mais previsível do que um garoto de dezessete anos diante de uma menina bonita?
Já tinha dado o primeiro beijo, os primeiros amassos, recebido as primeiras mãos bobas por baixo da blusa. Sempre que percebia o clima esquentando além do que estava disposta, fazia questão de colocar um ponto final na situação. Em partes pelo medo. Em partes porque, no fundo, gostava daquilo. Gostava do jogo. Gostava de ser desejada. Gostava da sensação de ser difícil.
Era quase engraçado observar até onde alguns garotos, no auge da puberdade e com os hormônios completamente fora de controle, estavam dispostos a ir para conquistar uma garota.
Já havia andado de mãos dadas, beijado em público, sentado no colo de alguns meninos durante festas — o que, quando se tem dezessete anos, era praticamente uma declaração pública de namoro. Mas nunca passou disso. E não por falta de tentativa da parte deles.
Anna simplesmente... não queria. Não se sentia mexida. Parecia sempre faltar alguma coisa. Nenhum daqueles garotos conseguia despertar nela aquele mesmo sentimento que a fizera perder completamente o rumo aos quatorze anos.
Nenhum deles, exceto Gabriel Martinelli. Conforme cresceu, Anna Alice finalmente conseguiu dar nome ao desconforto que parecia atingir os lugares mais profundos de seu ser sempre que ele aparecia.
Era uma paixonite. Talvez até um pouco ridícula. E, para piorar, todo mundo parecia ter descoberto isso antes dela. As amigas, que nunca perdiam a oportunidade de fazer piadinhas quando Gabriel aparecia em algum lugar. Elzio, que vivia lançando indiretas que fingia serem brincadeira. E até mesmo seu pai, que, toda vez que o filho do velho amigo João chegava perto da filha, lançava um olhar discretamente desconfiado para o garoto, como quem tentava entender se havia alguma coisa acontecendo ali.
Nunca perguntou nada diretamente, mas Anna conhecia bem demais aquele homem para não perceber.
Era simples.
Anna Alice gostava da confiança dele. Gostava da maneira como Gabriel falava exatamente o que pensava, sem parecer que estava tentando impressionar ninguém. E, curiosamente, justamente por não tentar, acabava impressionando. Gostava da calma, da educação, da forma como cumprimentava qualquer pessoa, do presidente do clube ao senhorzinho que vendia refrigerante na arquibancada, sempre com o mesmo respeito. Gostava da atenção que ele dava às crianças pequenas. Sentia o peito aquecer sempre que o via colocando algum menino no colo ou correndo pelo quintal com o priminho durante os churrascos de domingo, completamente despreocupado com a imagem de "craque" que já começava a construir na cidade. Gostava do cabelo sempre bem cortado. Do corpo magro, mas forte. Ele estava no ponto.
Não era musculoso demais, como alguns rapazes mais velhos faziam questão de ser, nem magricelo como boa parte dos garotos da idade. Também não era muito alto, nem muito baixo. Era... ideal.
Gostava da forma como era respeitado pelos amigos. Da dedicação quase obsessiva ao futebol. Da maneira como parecia sempre saber exatamente onde queria chegar. Gostava do jeito carinhoso com que tratava os pais. Nunca deixava de beijar a mãe no rosto quando chegava, nem de abraçar o pai sempre que tinha oportunidade. Eram gestos simples, quase automáticos, mas que, por algum motivo, faziam Anna sorrir toda vez que presenciava.
Gabriel mexia com ela. E, mesmo depois de finalmente entender isso, absolutamente nada mudou. Quer dizer... Mudou. Ela já não travava completamente como aos quatorze anos. Conseguia responder quando ele perguntava alguma coisa. Trocar um "como cê tá?" ou outro quando acabavam se encontrando na escola, no Novelli Júnior ou até na sala de casa, já que João e seu pai continuavam inseparáveis.
Mas ainda não conseguia ser ela mesma. Toda vez que Gabriel estava por perto, Anna parecia gastar energia demais pensando na próxima frase, no próximo gesto, na próxima expressão. Ficava tão preocupada em parecer perfeita aos olhos dele que acabava fazendo justamente o contrário.