Tocando em frente - Gabriel Martinelli. - Prólogo. - Wattpad
Tocando em frente - Gabriel Martinelli.
de Lisezee
Tocando em frente - Gabriel Martinelli.
Nova lista de leitura
VOCÊ ESTÁ LENDO
Tocando em frente - Gabriel Martinelli.
Anna Alice sempre acreditou que, quando os outros não mudam, somos nós que mudamos. Assim, o outro jamais precisaria fazê-lo. Desinibida, bem articulada e naturalmente simpática, ela atravessava o auge da juventude quando se viu diante de um dos maiores inimigos de quem ainda está aprendendo a viver...
A primeira vez que o vi, eu era apenas uma menina. O cabelo, escuro e liso, longo demais para alguém que deveria ter, no máximo, 1,55 de altura, e até meio sem corte, devido ao apego infantil que toda adolescente nutre pelos fios. + Naquela época, na verdade, acredito que até hoje. Eu nunca soube nomear o que senti. + Sempre fui extrovertida, tinha muitas amizades. A timidez nunca foi um problema para mim; era considerada por muitos "cara de pau" ou, até mesmo, como minha avó dizia, "conversadeira". + E aí, do nada, eu, que sempre fui boa com as palavras, fiquei sem saber o que dizer. Senti como se meu rosto fosse pegar fogo. Lembro-me de olhar para meu pai, que tentava inutilmente realizar apresentações entre mim e a família de seu amigo de longa data, João, que tinha um filho, jovem como eu: Gabriel Martinelli. + Provavelmente, pela primeira vez na vida, fiquei em completo silêncio. Não os abracei, não dei apertos de mão, nem mesmo fiz brincadeirinhas bobas. Eu apenas dei um sorriso meio forçado, quase falso, e abaixei a cabeça, envergonhada, enquanto sentia minhas bochechas queimarem. + Meu pai, que conhecia a filha que tinha, obviamente estranhou o comportamento tímido de sua borboletinha social. Quando levantei meu rosto novamente, evitando contato visual com aquele garoto estranho, o olhar atento de meu pai encontrou o meu. Consegui ver sua expressão mudando em câmera lenta. Hoje, eu acredito que, naquele momento, meu pai soube, antes mesmo de mim, o que eu havia sentido. Talvez por conhecer bem sua garotinha, ou talvez porque o tempo nos acostume a enxergar as obviedades que os adolescentes ainda insistem em disfarçar. + Gabriel ainda usava o uniforme do jogo e tinha os fios do cabelo escuro meio grudados na testa, devido ao suor. Ele havia passado os últimos 45 minutos correndo como um louco pelo campo. Todos estavam impressionados com o garoto que havia chegado há pouco na cidade e já mostrava toda sua habilidade no sub-15 do time local. Nunca tantas pessoas haviam se reunido no Estádio Novelli Júnior apenas para acompanhar um jogo das categorias de base. + Mesmo que eu tenha sido praticamente antipática com o garoto e seu pai, Gabriel ainda se manteve cordial e realizou com destreza todo o protocolo social básico. Perguntou como eu estava e o que eu tinha achado do jogo. Eu respondi ainda meio sem jeito, gaguejando algumas frases curtas, enquanto nossos pais, em sua própria bolha, comentavam sobre o segundo tempo do jogo. + Gabriel era naturalmente diplomático. Era como se, mesmo com 14 anos, já fosse uma estrela. Falava manso, mas enérgico, e dava atenção a todos que se aproximavam, desde crianças até idosos. Mantinha um sorriso no rosto e uma postura confiante, mas não muito. Afinal, era fundamental manter a aparência de alguém humilde e modesto. Perto dele, me senti uma criança, boba e imatura. + Gabriel e eu trocamos algumas palavras. Na verdade, ele falava, e eu apenas assentia de vez em quando, para não ser considerada completamente sem educação. Mas, para ser sincera, não me recordo de nenhuma das frases que pareciam perfeitamente ensaiadas ditas por ele. + Não demorou muito para que o momento, totalmente constrangedor para mim, fosse encerrado. Em poucos segundos, talvez menos de um minuto, o jogador foi cercado por várias pessoas que vomitavam elogios. Colegas de time o chamavam de craque, treinadores comemoravam e o parabenizavam pelo ótimo desempenho, e outros adolescentes, incluindo alguns de meus amigos e amigas que tinham ido apenas para assistir ao jogo, o bajulavam. Mantive-me afastada, apenas observando a movimentação, o que era estranho; afinal, eu sempre estava no meio da bagunça, rindo alto e participando das brincadeiras. + Eu ainda não sabia, mas, com a chegada de Gabriel Martinelli na cidade, tudo estava prestes a mudar. +